Ocupação #1

















CLUBE NAVAL: Ocupação em lugar de Estar

Tudo começou lá do alto do mastro.
Do alto-mar, do marasmo, podem surgir novas terras-à-vista (...)
Quando ao primeiro sinal daquele alto, tudo o mais se desencadearia
no resto do corpo do navio.
Todos se movimentam, ocupam em função de um lugar.
Um novo espaço no tempo, avistado.


O mesmo acontece aqui.

O grupo ATE e seus artistas integrantes – o corpo deste navio – se movimentam através desta vista do alto do mastro, em um ocupar contra um simples estar.
Acreditam que mesmo ao lugar-comum sempre haverá um espaço/tempo capaz de ser ocupado diferentemente. É neste atentamento, neste segundo olhar, que criam possibilidades, utopias: uma condição artística.
Em cada canto aqui se criam contos. Reavivam, reacendem ora para um alerta, ora por um aviso,... ou mesmo um convite.
Este grupo, formado por Cristiane Geraldelli, Leandro Furtado, Lúcia Dacosta e Marília Jaci – e artistas convidados como Edna Kauss, Ilana Braia, Ivani Pedrosa, José Nasser, Laura Burnier, Nelson Ricardo, Sani Guerra e Sheila Mancebo, ocupam pela primeira vez as dependências do Clube Naval com intervenções artísticas requestionando o lugar. A acuidade do olhar de cada artista faz com que criem percepções onde estão a gerar suas próprias poéticas.
Percebe-se que para estes artistas o lugar-comum é o motivo de pesquisa. O que ali é composto como quase estátuas/estatutos é novamente construído e disposto a seguir: em lugares-outros (nas fotomontagens sem título de Lúcia Dacosta); nas propostas ao espectador por um mergulho no imaginário subjetivo (fotografia /intervenção arquitetônica intitulada “Todo clube tem sua piscina mergulho”, por Cristiane Geraldelli); aos tratamentos lúdicos realinhados por conceitos (nas instalações “Batalha Naval à vista” de Marília Jaci e em “Nós e amarras”, Edna Kauss ); evidenciações por revisitamentos histórico-culturais e estéticos (instalação “Tupy or not Tupy or not?” de Ilana Braia e José Nasser); aos objetos invisíveis, desapercebidos ao cotidiano retratados/reavivados por dispositivos fotográficos (“Porto-Retrácteis - nenhum, ninguém”, nas fotografias digitais de Leandro Furtado); das problematizações da funcionalidade dos espaços (Ivani Pedrosa com sua instalação intitulada “Autorretrato”); nas proposições por rupturas aos caminhos do olhar dentro de uma tradição (Nelson Ricardo em sua instalação “Marinhas”); nas inversões, negativações e revisitações ao espaço arquitetônico (“Peça IX Projeto Construção”, intervenção escultórica de Sani Guerra e com Sheila Mancebo em seu trabalho “Horizontes”, uma intervenção arquitetônica); nos entre reavivamentos de espaços e reformas por incomodações artísticas (site specific intitulado “36.207 dias de memória”, por Laura Burnier), entre outros blocos do sensível.
Todos acreditados por este segundo olhar, não exatamente como novas formas de olhar, mas como novos olhares por uma nova formação, incisivos a provocar a todo tempo a condição de um lugar.
Mas somente se atentarmos onde estamos é que podemos provocar ações, a desvelar algo.
Ali, o que se pretende aqui em princípio-último é uma troca. O poeta é aquele que, quando pressente lá do longe um marasmo, é o primeiro a acordar o povo da ilusão daquilo que virá. É este mesmo ser-farol, movido muitas vezes pela ânsia/angústia qual percebemos em nós, que trata de um cuidar autêntico do mundo.
É talvez mesmo nesta urgência daquela troca (po)ética - do simplesmente Estar pelo cuidado autêntico de uma
Ocupação - que possamos nos aproximar verdadeiramente de um ser-no-mundo, conceito este que nos indica e nos faz apontar as possibilidades dentro das aberturas de um espaço-tempo, o “onde/quando” podemos nos realizar na busca em imanência.
Ocupamos portanto um lugar, um espaço no tempo, não para simplesmente estar, mas para traduzir um cuidar, um fazer perceber de um mundo e um gerar poético do mesmo mundo sobre a terra, ou seja, um revisitamento do trazer-relacionar... arte e vida.


Leandro Furtado
Maio 2009

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