OCUPAÇÃO
A ocupação desse lugar pressupõe a dissolução do espaço galeria. O Clube Naval carrega a priori, uma história e também funcionalidade. Impossível a um artista chegar aqui e simplesmente depositar sua obra.
O trabalho não só ocupa um lugar, mas constitui, agora, o lugar. É uma experiência estética contemporânea, um espaço onde a arte acontece.
O entorno também faz parte dela. Ao espectador será delegado o poder de refletir sobre o tamanho, os limites, sobre as dimensões de cada trabalho. Nesse caso a sala faz parte da obra? e seus objetos? e a arquitetura? E todo o contexto do Clube Naval?
Esta não é uma ocupação óbvia. Não se percebe, de pronto, as obras. É uma ocupação elegante, respeitosa. Feita para os olhos de quem sabe ver, de quem ainda é capaz de perceber o mundo a sua volta, de se deter, de aprofundar o olhar nas coisas.
Entra-se na exposição e, a princípio, o lugar é o mesmo, o olhar não está perturbado. Imagino alguém a entrar, a procurar e se perguntar, mas onde estão as obras? Mas o olhar é repentinamente capturado. Somos capturados pela obra, ela se evidencia pela sua presença.
E em outros dias, quando pessoas entraram por uma outra razão, com a mente ocupada por afazeres, poderão passar pelos trabalhos sem notá-los. Mas se o forem, se dará uma interrupção no cotidiano.
Chama-me a atenção, também, a diversidade dos espaços escolhidos. Os artistas optaram por não ocupar o mesmo lugar. Ficou mais difícil encontrar as obras. Porém, como elas passaram a fazer parte do lugar, quando forem retiradas, farão falta.
Arquitetura, espaço e tempo são as tônicas da exposição. Mas há uma quarta: o olhar, a ênfase está no olhar. Um olhar a ser capturado permeia toda a exposição.
Cristiane Geraldelli
Na foto maior o espelho d água não é espelho é espaço. Nas outras também não é espelho, é inversão. Além disso, existe a possibilidade de um mergulho. Mergulhar aonde? Mergulhar para o alto.
Já no trabalho de Edna Kauss,
do alto, nosso olhar mergulha no abismo. Assim, ao olharmos para cima, sentimo-nos abaixo da superfície, submersos, envoltos em algas abissais, luminosas.
Sheila Mancebo
Tem o maior trabalho visível da mostra. Porque ele se faz tão visível? o que ela amarra? e ainda não terminou de amarrar, pois há um novelo. Amarra algo invisível. Espaços.
Ilana Braia e José Nasser
No próprio título está a chave: descobrimento. Quem descobre quem? o índio, o europeu? e o que é que se descobre? Um olhar-se pela primeira vez. Descobrimento, encontro. Na sala dos encontros.
José Nasser
Indaga sobre o ser do próprio olhar. Um tempo histórico separa dois olhares que se olham. O tempo entre os dois desaparece. Ela é corpórea em sua presença estátua, ele aqui é corpóreo, ali, imagem.
Ivani Pedrosa
Nesse espelho nos encontramos fisicamente em imagem, num olhar reduplicado, multifacetado, polivalente de nós mesmos. E após, ajoelhar-se, voltar-se para si e descobrir-se. Internamente.
Nelson Ricardo
Nos trás a recomposição fragmentada da memória dos lugares. Vislumbres, que nos ressurgem, que vem à tona quando uma fresta se abre e permite a arte ao artista.
Lucia Dacosta
Seu trabalho é praticamente o único a não se integrar com o lugar. Porém o espaço contido em sua moldura pensa o lugar, e ao subvertê-lo, nos faz pensá-lo arquitetonicamente.
Sani Guerra, por outro lado,
cria um clone, retira uma pele para tornar visível a forma, no caso a coluna, forma quase invisível ao passante, apesar do tamanho. Assim, passamos a olhar com acuidade para cada detalhe da sua estrutura.
Marilia Jaci
O termo ocupação possui também outros sentidos, entre os quais o de ocupar-se com. Marilia ocupa-se com o olhar militar, com a ocupação profissional, aqui tornada jogo, jogo de ocupação. Mas que jogo é esse? O que joga esse jogo?
Laura Burnier
Nosso olhar é planar, só vemos duas dimensões, de modo que ao estarmos debruçados sobre uma mesa capturamos o chão com o olhar e os dois planos se tornam um. Aqui o chão é literalmente capturado para o nível da mesa.
E por fim, Leandro Furtado
Até para porta retratos não olhamos mais, tão acostumados que estamos a prever o que estaria ali sacralisado. Leandro sacralisa ações, aquelas para as quais não olhamos mais, mas que são fundamentais.
LIA do RIO
julho / 2009
Nenhum comentário:
Postar um comentário